Alcoólatra, eu? – Somente Áudio

Clínica TotalBalance
Alcoólatra, eu? – Somente Áudio
/

Dr. Sergio Klepacz da Clínica TotalBalance fala a respeito do alcoolismo na pandemia.

Neste vídeo você irá conferir:

  • preciso rever meus conceitos sobre o álcool?
  • Como saber se tenho um problema com o álcool?
  • Quais são os sinais de alerta que devo me atentar?

Siga o programa no Instagram.

Transcrição

Drº Sergio Klepacz – Durante a pandemia muitas pessoas têm se queixado ou têm referido momento significativo do consumo de álcool, então a pessoa tá em casa, toma um vinho, cerveja, etc, etc.

Em geral o ócio é um dos grandes instrumentos que favorecem o consumo de álcool. Mas como a gente pode definir e que dica gente pode dar que tá na hora de você rever os seus conceitos sobre o álcool?

Primeiro lugar assim, vamos entender: como funciona o álcool? O que que ele faz? O álcool, ele basicamente é um depressor. Então chega um ponto que a pessoa bebe e a pessoa dorme; ele é um depressor do Sistema Nervoso Central e, ao mesmo tempo, um euforizante.

A princípio se dizia que ele inibia a inibição e, portanto, você teria uma resposta euforizante, mas, na verdade, a coisa é um pouquinho mais complexa. Algumas pessoas, que são as pessoas que têm muito risco de se tornar dependentes do álcool, tenham um prazer maior do que outras em beber, por liberação de um opiáceo que chama-se dinorfina. Tanto é que os tratamentos modernos usam bloqueadores de opiáceos pra gente poder tirar esse craving de álcool de algumas pessoas.

Mas como saber se a gente tem um problema com álcool? Muita gente diz:

“Não, eu não tenho problema com álcool, eu não sou alcoólatra, eu não preciso beber todo dia, eu não tomo pinga, eu só tomo cerveja ou eu só tomo vinho”.

Cada um tem a sua desculpa.

“Eu não cheguei no fundo do poço”.

Então as pessoas têm por conceito o alcoolismo como alguma coisa assim que você passa na rua e vê aquele alcoólatra terminal, aquela fase terminal da doença, que ele tá jogado na rua com uma garrafa de pinga, aquela coisa clássica.

“Ah, eu não tenho nada disso”.

Sim, não quer dizer que você vai chegar nesse ponto, mas você pode ter prejuízos relacionados ao álcool.

Quem tem problema com álcool antes? Como é que a gente poderia definir, antes de qualquer coisa? São aquelas pessoas que têm qualquer prejuízo relacionado ao álcool, pode ser, por exemplo, um aumento de enzimas hepáticas, então a pessoa não tem nada, mas tem as enzimas hepáticas aumentadas num exame de rotina.

Eu tenho visto muito isso. Você olha assim, você não diz que a pessoa tem qualquer tipo de problema:

“Não, eu bebo todo dia uma dose de whisky, bebo duas doses, etc., etc.”.

É, mas seu fígado tá em sofrimento, ou às vezes não, depende do metabolismo de cada pessoa. Outras pessoas têm problemas de relacionamento, então quando bebe, é clássico aquele indivíduo que bebe, chega em casa e agride os filhos, agride a mulher, etc, ou a mulher que chega em casa ou bebe numa festa e faz coisas que não devia ou depois se arrepende de ter feito. Então isso é um sintoma.

Outro sintoma clássico são ressacas muito fortes, a pessoa, no dia seguinte, domingo de manhã… tem até aquela música, né, que o cara diz que chega de passar mal no domingo de manhã. Então essas pessoas têm um problema com álcool.

Às vezes elas chegam a ter a Síndrome de Dependência do Álcool, seria o primeiro estágio do alcoolismo, que é quando a pessoa já começa a beber basicamente sozinha, a pessoa começa a disfarçar, esconde garrafa no armário, isso é uma coisa clássica também, esconder garrafa no armário, jura que não tá bebendo, e tá bebendo, a família, o cônjuge já tá meio preocupado, a pessoa começa a mudar um pouco, já começa a ser alguma coisa que ela não era. Isso já indica um problema.

Às vezes a pessoa fica muito tempo nesse estágio, e dentro dela tem sempre aquela necessidade de beber, ela não consegue conceber um momento de não beber. Às vezes fica lá uma semana sem beber:

“Tá vendo? Eu fico uma semana, não tenho problema nenhum”.

Aí na outra semana ela vai beber quase que descontando, ou fim de semana, né, aquela pessoa de fim semana precisa beber demais. São pessoas que têm um problema com álcool, e quando eles chegam na fase da Síndrome da Dependência de Álcool, a pessoa não consegue pensar em outra coisa que não seja beber, precisa beber pra ser feliz.

Como eu disse, essas pessoas às vezes têm liberação de opiáceos, da dinorfina, que é um mediador da felicidade, então a pessoa, pra ela ser feliz, é beber, isso é um dos principais sinais, e quando ela para, ela fica nervosa e sente-se, por vezes até, mal. Quais os sinais de que o álcool pode estar sendo realmente prejudicial, pode tá machucando principalmente o seu cérebro? Isso é uma coisa que chama-se palimpsesto alcoólico.

O que que é isso? É quando a pessoa não lembra absolutamente nada do que fez na noite anterior, quando a pessoa bebeu, passou do limite. Isso é um mau sinal porque já indica que o hipocampo, que é uma área relacionada à memória, que é relacionada ao bem-estar, é uma área, digamos, antidepressiva, que, quando ela funciona bem, dificilmente a pessoa vai entrar em depressão, está sendo afetada. Isso é um mau sinal, é sinal de que o álcool está prejudicando o cérebro, que é um dos principais órgãos alvos do álcool. Então ele tem um limite, existe um limite tênue do que faz bem, existem alguns trabalhos que mostram.

Muita gente fala:

“Não, beber vinho, beber um pouquinho”.

Sim, beber um pouquinho, uma dose muito limitada pode ser saudável, a partir de um ponto ela passa a ser prejudicial mesmo. E outra questão que quem tem problema com álcool não percebe, mas acaba enfrentando é o problema da tolerância que o álcool causa. Então como eu disse no começo, o álcool é um sedativo, é um depressor do sistema nervoso, porém conforme a pessoa vai bebendo, ela já vai se tornando tolerante a este efeito, e aí a pessoa bebe pra dormir, pra relaxar, e aí bebe e não consegue dormir. É um efeito muito rápido, a tolerância é muito rápida com o álcool.

Então aí a pessoa não consegue dormir e a pessoa começa a ficar com insônia e aí, consequentemente, aumenta a ansiedade, porque ela fica tolerante ao efeito ansiolítico do álcool, e finalmente cai na depressão.

Muitas pessoas procuram, em caso de depressão, estão em depressão, e, no fundo, no fundo, tudo foi causado pelo excesso de álcool. Então insônia, depressão, isso é uma causa, a pessoa tá bebendo mais ou tá bebendo muito, é hora de repensar os conceitos.

O alcoolismo é um problema, uma doença tolerada, o consumo é tolerado pela sociedade, pela maior parte das sociedades, mas existe uma linha tênue entre o que é saudável e o que é patológico. Então tá na hora, às vezes, de você rever os seus conceitos.Se você tem dúvida, dá um mês sem beber e você vai saber realmente se seus problemas tão ligados a isso ou não. Boa sorte.

Publicado por Dr. Sergio Klepacz

Dr. Sergio Klepacz CRM 39099 – Médico psiquiatra desde 1983 pela Santa Casa de São Paulo, mestrado em psicofarmacologia pela Unifesp. Diretor da clinica TotalBalance Medicina Integrada.