O Cérebro que nos faz Humanos

Não podemos falar em desequilíbrio biopsíquico sem compreendermos o que hoje sabemos a respeito do funcionamento do cérebro.

Sobre esse tema posso afirmar que nunca houve progresso tão marcante quanto na área da neurociência.

Me recordo quando, ao redor do inicio dos anos 80, iniciei meu curso de formação em psiquiatria, logo após o termino da faculdade de medicina o cérebro era ainda um grande mistério, pouquíssimo se sabia sobre a dinâmica e a química cerebral, bem como do seu funcionamento.

Hoje em dia temos um conhecimento muito mais amplo de toda a dinâmica cerebral que foi conseguida através do desenvolvimento de técnicas sofisticadas de mapeamento funcional do sistema nervoso central, a ponto de que hoje contamos com instrumentos capazes de estimular ou bloquear áreas especificas via estímulos  magnéticos em áreas capazes de influenciarem o humor e o conteúdo ideativo de um individuo, como é o caso da estimulação magnética trans craniana, tratamento que hoje em dia já aparece como uma alternativa ou complemento a psicofarmacologia e psicoterapia, tratamentos que eram as únicas alternativas naqueles primórdios da década de 80.

A função do cérebro

O cérebro é a casa da mente. Entramos em contato com a mente, no nosso dia a dia mas não com o cérebro. Esse órgão, complexo e sofisticado foi evoluindo através do tempo, e hoje o enxergamos como uma entidade autônoma que funciona pela lógica da sobrevivência da espécie. 

O sistema emocional é bem mais primitivo do que o racional, e serviu como um instrumento de defesa contra as ameaças externas.

Existem basicamente dois tipos de células no cérebro: O neurônio e as células da glia. O neurônio é de onde se originam os impulsos nervosos e as células da glia tem função na produção de substâncias químicas que ajudam o funcionamento do neurônio.

Uma das principais características dos neurônios é a capacidade de estabelecerem comunicação entre eles, e pelo que conhecemos hoje em dia, quanto mais rápida a capacidade dele se comunicar e quanto mais densa é essa arvore de comunicação, melhor e mais eficiente é uma determinada função.

O neurônio 

A ligação química entre neurônios é feita basicamente por moléculas conhecidas por neurotransmissores (NT), que são sinalizadores químicos capazes de transmitir uma determinada mensagem entre dois neurônios. O tipo e a quantidade de neurotransmissor será determinante para qualidade e quantidade de determinada função.

Mais recentemente se descobriu que a função dessa transmissão sináptica não era somente de comunicação, mas também de estimulo a produção de proteínas que irão contribuir para a construção e manutenção da própria rede neuronal.

Digamos que o neurônio A libera NT para o neurônio B, dependendo no receptor no neurônio B que o NT ativa, esse neurônio ira produzir proteínas e fatores de crescimento que serão responsáveis por aumentar a quantidade de dendritos (espécie de braços) necessários para que haja a comunicação com um neurônio C, e assim por diante, e deste modo ao final teremos a formação de uma rede de neurônios que funcionaram em conjunto e irão desempenhar alguma  determinada função de modo bastante consistente, e isto explica porque certos comportamentos nossos são praticamente imutáveis.

Os Neurotransmissores 

Os NT se constituem na química que faz a comunicação e reforço de uma determinada rede neuronal.

Os NT se acoplam a um determinado receptor, e este complexo NT-receptor é responsável pela mudança da atividade elétrica do neurônio, bem como pela produção dos chamados fatores de crescimento, que são determinantes para o crescimento da rede neuronal.

De modo geral, boa parte das chamadas medicações psiquiátricas, ou mesmo das chamadas drogas ilícitas, funcionam  através da modulação dos NT e de seus receptores, são drogas capazes de bloquear receptores, aumentar a disponibilidade de NT na fenda sináptica, mimetizar o efeito do NT no receptor, etc..

Partir da década de 50, os primeiros antidepressivos foram descobertos por acaso por J Delay a partir da observação do efeito euforizante de certos antibióticos usados para o tratamento da tuberculose, e a partir dai a psiquiatria começou a traçar hipóteses simplistas para a origem dos distúrbios psiquiátricos.

Me lembro que por ocasião do meu curso de formação em psiquiatria, no inicio da década de 80, se dizia em hipótese serotonérgica da depressão, hipótese dopaminérgica da esquizofrenia, e por ai em diante, como se somente a falta, ou o excesso de um neurotransmissor pudesse explicar todo o corolário de sintomas que apresenta um paciente que sofre de algum transtorno psiquiátrico.

Obviamente a pratica clinica e a evolução das neurociências serviu para refutar essas hipóteses simplistas, mostrando mecanismos bem mais complexos, para explicar a origem dos distúrbios mentais.

O que nos faz humanos?

O cérebro humano é o mais sofisticado no reino animal, possivelmente devido a possuir áreas especificas capazes de fazer a integração da percepção sensorial com respostas adequadas que tornaram o ser humano o campeão de sobrevivência e domínio do mundo.

Falando de cérebro, tamanho nem sempre é eficiência, o seu volume sempre será proporcional a massa corpórea do animal. Por exemplo, o cérebro de uma baleia é o maior de todos, o do homem é maior que o da mulher.

Mas o que interessa de fato em termos de inteligência não é a massa total e sim o tamanho da área pré-frontal, uma região essencial para a tomada de decisões, planejamento de ações, modulação do comportamento social e formulação de pensamentos complexos. E nós, seres humanos temos uma extensa região pré-frontal, muito maior do que de qualquer outro animal.

O cérebro consome 20% de toda a energia do corpo (cães, em comparação, consomem apenas 8% da energia do organismo), tem em torno de 2% do peso total do corpo e 86 bilhões de neurônios (massa cinzenta).

Há também as áreas formadas pelas chamadas células da glia, durante muito tempo consideradas pelos cientistas apenas como matéria de enchimento, sem grande importância. Hoje, no entanto, sabemos que essa massa branca produz importantes neurotransmissores, fundamentais para a química cerebral. 

Há milênios atrás, uma conjuntura especial fez a diferença na evolução do cérebro de hominidios que perambulavam pelo continente africano. As águas do oceano Indico que banham o extremo sul  da Africa, forneceram os peixes e moluscos ricos nas chamadas  gorduras poli insaturadas, ingeridas pelos primitivos grupos humanoides que habitavam as cavernas junto às lagoas de águas salgadas onde esses se alojaram.

As chamadas gorduras insaturadas são hoje em dia conhecidas como as gorduras saudáveis, ao contrario das chamadas gorduras saturadas e da famigerada gordura trans, que quando ingeridas em excesso podem representar um risco a saúde, inclusive para o próprio cérebro que pode incorporar esse tipo de lipídio na sua composição, aumentando o risco para depressão ou outros distúrbios psiquiátricos, nesses indivíduos.

A gordura poliinsaturada da dieta foi incorporada a membrana do neurônio daqueles homens primitivos, alterando a composição da mesma e as tornando mais maleável aos impulsos nervosos que correm por  aquela membrana. A partir de um determinado ponto esse novo neurônio, mais ágil e veloz, passa a produzir ideias e abstrair conceitos, o quer ja seria um sinal de inteligência. 

Hoje, vários estudos comprovam a eficácia da ingestão de ácidos graxos tipo Ômega 3, como o EPA (ácido ecosapentanoico) e o DHA (acido docosahexanoico ), no tratamento e prevenção de doenças psiquiátricas como esquizofrenia e depressão, por exemplo.

Um artigo publicado no periódico científico Nature Communications mostrou que esse tipo de gordura ajuda a prevenir transtornos psicóticos e psiquiátricos, especialmente entre jovens. Para chegar a essa conclusão cientistas australianos e austríacos liderados por Paul Amminger, da Universidade de Melbourne, iniciaram um experimento há dez anos: ofereceram uma dieta regular de suplementos com Ômega 3 a 41 voluntários com idades entre 13 e 25 anos, com elevada propensão a desenvolver esquizofrenia. 

Paralelamente, um grupo com características semelhantes foi alimentado com uma dieta de suplementos de placebo. Passada uma década, os pesquisadores observaram que apenas 10% dos participantes do grupo que recebeu o suplemento verdadeiro desenvolveu algum tipo de psicose, em comparação com 40% daqueles que receberam placebo. Além disso, os integrantes desse último grupo também apresentaram uma maior incidência de outros transtornos psiquiátricos.

A partir de um sistema nervoso sofisticado, o homem pode adquirir comportamentos que foram capazes de favorecer a evolução da espécie, tais como uma excepcional capacidade de adaptação ao ambiente, solidariedade, e a capacidade de se colocar no lugar de outro homem, o que no final, culminou com o total domínio do planeta pela espécie humana.

O domínio do cérebro 

Vejo que o conceito de que podemos dominar de nosso próprio cérebro, e portanto a mente, seja ainda um dos grandes tabus da humanidade, e os anos de pratica psiquiátrica me mostram claramente o quanto isso é um problema real.

Quando passo numa livraria e vejo a quantidade de livros de auto ajuda que ensinam como controlar nossas emoções e mesmo nosso pensamentos, penso que se isso fosse realmente possível, apenas um deles bastaria.

A historia tratou os pacientes psiquiátricos como possuídos pelo demônio, pecadores, pessoas que perderam o controle de sua mente por castigo divino, etc., e nos deixou um legado de preconceito que até hoje assolam muitos pacientes.

Hoje em dia muitos indivíduos que sofrem de condições tais como síndrome do pânico, transtorno obsessivo compulsivo, ou mesmo de depressão sofrerem duplamente: Pela síndrome em si, e pela frustração de não conseguirem controlar suas mentes, despendem uma energia enorme nesse processo, aumentando em muito a sensação de incapacidade o que resulta inclusive na piora do quadro em si.

A principal função do cérebro é de defesa da espécie através da sobrevivência dos seus indivíduos, e portanto ele acredita que exista algum perigo no meio externo, ou dentro do próprio grupo que convivemos, ele ira funcionar pela logica da sobrevivência e portanto ira “desligar” nossa capacidade de auto controle, resultando nas inúmeras síndromes psiquiátricas.

Um jeito de explicar esse processo é imaginar que exista uma hierarquia no nosso cérebro de modo podemos falar que quando perdemos a função hierárquica do cérebro, estamos sujeitos a uma serie de desequilíbrios do sistema emocional.

Quando áreas instintivas, principalmente áreas límbicas responsáveis pelos mecanismos básicos de defesa deixam de ser dominadas pelo córtex, poderemos ter uma pessoa com constantes acessos de ansiedade e com um consequente processo depressivo. Uma das principais estruturas  que estão relacionadas a sinalização do perigo externo são os corpos amigdaloides, também conhecidos como as amígdalas cerebrais. Esses órgãos em formato de pequenas amêndoas são bastante primitivos, ou seja, estão presente desde animais mais primitivos como repteis e peixes, e participam dos processos de defesa instintiva básica desses seres.

As amigdalas cerebrais, e a origem do medo

Os corpos amigdaloides estão mais ativos nos pacientes com estados depressivos ansiosos, segundos pesquisas feitas com modernos aparelhos de ressonância magnética funcional.

Ao longo da evolução, quando nos tornamos humanos, passamos a ter maior controle sobre as áreas de defesa, adquirimos mais instrumentos de manejo contidas nas regiões pré-frontais e nos hipocampos.

Ou seja: algo que desencadeia o medo ou a ansiedade, em certas situações pode até ser controlado, o que em alguns casos se torna prazeroso.  Uma pessoa que salta de bungee jumping, por exemplo, capaz de racionalizar o medo e saltar de um ponto alto com uma corda amarrada no pé por diversão. Só o ser humano consegue fazer isso porque é capaz de desafiar seus sentimentos mais primitivos.

O núcleo amigdaloide na verdade não é uma estrutura homogênia, sendo formada por grupos de neurônios que recebem influencia química de hormônios e peptídeos (pequenas moléculas sinalizadoras) de modo a modular o medo e a ansiedade. 

Entre os sinalizadores químicos que influenciam a atividade das amígdalas temos neuropeptideos que são influenciados pelo nível de saciedade de modo que a satisfação do apetite acalmaria o corpo amigdaloide, o que explicaria a relação da ansiedade com a obesidade, e vice e versa, a fome leva ao aumento da agressividade pela ativação da amígdala. 

O hormônio ocitocina que é liberado pela glândula hipófise, pela ocasião de quando vemos um rosto de alguém que confiamos ou que amamos, tem afinidade pelas células da amígdala, e contribuem para diminuir a ansiedade e insegurança, através da diminuição da atividade da mesma.

Publicado por Dr. Sergio Klepacz

Dr. Sergio Klepacz CRM 39099 – Médico psiquiatra pela Santa Casa de São Paulo desde 1980, mestrado em psicofarmacologia pela Unifesp. Diretor da clinica TotalBalance Medicina Integrada.

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