Pânico de Voar

O pânico de voar, ou aerodromofobia, pode atingir até 13% da população e é um fenômeno que vem crescendo ao ritmo da popularização das viagens aéreas, podendo ser uma fonte de angústia importante para esse grupo.

Imagine um indivíduo que sofre de uma grave fobia de avião e necessite fazer viagens de negócios para a empresa com certa frequência?

Ou a mulher que planejou a viagens de seus sonhos e tem que abandonar a família no aeroporto, por simplesmente não conseguir embarcar na aeronave?

Por aí vemos a gravidade desses quadros, que a princípio podem parecer uma simples fraqueza na vida de uma pessoa.

Em primeiro lugar, seria bom diferenciar entre um simples medo de voar, da fobia ou pânico de enfrentar uma viagem aérea.

No primeiro caso, pessoas que não conhecem como funciona o avião ou que não tenham muita experiência em viagens são as suscetíveis a esse medo. No caso, a compreensão das leis da física que impulsionam um avião para cima e o mantem lá, bem como a experiência em viagens podem fazer com que as pessoas portadoras desse medo sintam-se cada vez mais confiantes.

No entanto, para a verdadeira fobia, a resolução não é tão simples assim: Esses são reais portadores da aerofobia, distúrbio que pode trazer consequências bem desagradáveis para esses pacientes.

O que faz uma pessoa desenvolver o quadro? Em primeiro lugar, é bom pontuar que as fobias são uma espécie de defesa natural, que a mente usa para prevenir possíveis riscos à nossa integridade: Imagine o que seria de uma pessoa que não tenha medo ou asco de aranhas ou escorpiões?

Em boa parte dos casos alguma experiência traumática desencadeia a fobia, e no caso da aerofobia, uma turbulência, um voo problemático, pode ser o fator desencadeante, criando nesse caso o que conhecemos como memória traumática, que tem um componente cerebral e, por isso, é quase impossível de ser extinta. Essa memória pode ir se “sofisticando” de modo que um medo vai desencadeando outro criando toda uma situação desencadeadora de ansiedade.

Em muitos pacientes, o quadro vem com parte de uma síndrome do pânico ou de um quadro depressivos já instalado e nesses casos, não obrigatoriamente, a aerodromofobia é o medo de que esta pessoa possa ser vítima de um acidente aéreo, mas pode ser o pânico de passar mal a bordo ou de estar enclausurado em um lugar estreito e sem saída.

O dilema humano

A inteligência humana, fenômeno único no reino animal, é capaz de compreender a morte em toda a sua dimensão e, para isso, necessitamos de mecanismos protetores para continuarmos existindo sem a angustia decorrente da vivência dessa realidade.

Sem percebermos, criamos diariamente mecanismos de defesa contra a decepção decorrente do conhecimento de nossa finitude: Mudamos hábitos, controlamos a alimentação, nos vemos como exímios pilotos de automóvel, rezamos, enfim, criamos toda uma fantasia de imortalidade baseada na mais pura fantasia.

Na realidade esse sentimento de poder e controle, tem exatamente a função de nos proteger no momento em que sentamos na cadeira da aeronave aguardando instruções para a decolagem: “Sou um indivíduo de sorte, nada ira me acontecer” ou “Tenho proteção divina contra qualquer infortúnio“ são ideias que nos previnem contra o pânico de voar, e que de alguma maneira estão ausentes nos pacientes com aerofobia.

A serotonina e a fantasia da imortalidade

Um dos prováveis neurotransmissores responsáveis pela fantasia da imortalidade é a serotonina. Pacientes que sofrem com distúrbio de pânico vivem uma situação semelhante a aerofobia, mas em locais e situações diferentes. Alguns deles desencadeiam o quadro quando estão em um elevador, no automóvel, em locais amplos e abertos, em hospitais, etc. O tratamento da síndrome do pânico é realizado principalmente por drogas que aumentam a disponibilidade de serotonina no cérebro.

As chamadas drogas alucinógenas, tais como o LSD, tem sua estrutura química semelhante a serotonina, e possivelmente por isso provoquem alucinações, que nada mais são do que fantasias que se tornam realidade na nossa mente.

As drogas conhecidas como inibidores seletivos de receptação da serotonina (fluoxetina, sertralina, paroxetina, etc) costumam serem prescritas pelos médicos nas fobias, podendo ter utilidade na aerofobia, apesar de que não existem muitas pesquisas a respeito.

O problema dessas drogas é que necessitam pelo menos serem tomadas diariamente por no mínimo 15 dias anteriormente a viagem e no começo podem apresentar alguns efeitos colaterais, como enjoo ou diarreia.

O GABA, os calmantes e o álcool

O cérebro tem dois sistemas que se contrapõem: O ativador e o inibidor.

Como o próprio nome diz, o último é o responsável pela calma e relaxamento do sistema emocional e é mediado por um neurotransmissor chamado de GABA (ácido gama amino butirico).

Os chamados calmantes, ou “faixas pretas” (Rivotril, Frontal, Lexotan, etc), que são vendidos mediantes receitas especiais, são drogas da família dos chamados benzodiazepínicos e agem como o GABA, provocando uma sensação de calma quase que instantânea.

O mesmo acontece com o álcool, que também atua como o GABA, sendo que a sua ação euforizante resulta da inibição do senso crítico, mas no final o sono é inevitável.

Os pacientes com aerodromofobia costumam usar e abusar dessas duas substâncias e, ocasionalmente, misturam ambos. O problema com essas substâncias é que podem provocar dependência, com consequências por vezes graves para esses indivíduos.

Entre os efeitos colaterais podemos citar sonolência excessiva, perda de memória e eventualmente depressão.

Outros tratamentos

Existem técnicas psicológicas de exposição a fobias, psicoterapias especificas, hipnose, cursos específicos explicativos sobre aeronáutica, meditação, etc.

Muito tem sido tentado, mas não podemos falar de um método que seja 100% eficiente. Pessoalmente observei que pacientes que se submeteram a tratamento com a estimulação magnética transcraniana tiveram melhoras da aerodromofobia, numa espécie de “efeito colateral” do tratamento, mas ainda não existe uma indicação precisa para o caso.

Dica

Qualquer que seja o quadro, o importante é que o paciente não subestime o seu problema, bem como inicie algum tratamento sem ter o tempo suficiente para a obtenção dos resultados terapêuticos.

Desta forma, o paciente evita ser pego de surpresa na hora do embarque, quando pouco pode ser feito.

Publicado por Dr. Sergio Klepacz

Dr. Sergio Klepacz CRM 39099 – Médico psiquiatra desde 1983 pela Santa Casa de São Paulo, mestrado em psicofarmacologia pela Unifesp. Diretor da clinica TotalBalance Medicina Integrada.

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