Os Antidepressivos Causam Dependência?

O presente texto é a segunda parte de todo um capítulo que se refere a esse assunto. Ao todo serão 3 partes lançadas a cada 2 semanas.

A resposta é não, os antidepressivos não causam dependência semelhante às drogas de abuso (maconha, cocaína, anfetaminas, etc) ou o álcool, e o motivo é simples:

Para que uma droga tenha potencial de provocar dependência, e portanto abuso, ela tem que ter uma ação muito rápida, e provocar um bem estar imediato, ou seja quase que instantaneamente ao uso.

Quanto mais rápido é a ação da droga, maior a possibilidade de ela provocar dependência.

Um exemplo seria comparar o vicio da cocaína com o do crack, que apesar de serem praticamente a mesma substancia, podemos dizer que com o crack a dependência é muito pior, por ter uma absorção mais rápida ainda do que a cocaína aspirada.

Os antidepressivos tem uma ação muito lenta em termos de efeito terapêutico, ao redor de 15 dias após o inicio da tomada, e não provocam um choque de bem estar imediato, como seria o caso dos calmantes ou quimicamente chamados de benzodiazepínicos (os “faixa pretas” como o Rivotril, Frontal, Lexotan, Diazepam, etc) que não pertencem a categoria das drogas antidepressivas, apesar da confusão geral entre as pessoas leigas, sendo que esses sim, podem provocar uma forte dependência.

Podemos dizer que os antidepressivos podem provocar um efeito rebote se suspensos rapidamente, o que pode ser confundido com abstinência. No caso das drogas de abuso ou dos calmantes, surge junto com os sintomas da abstinência, uma forte necessidade de se voltar ao padrão de uso anterior à parada, o que não ocorre com os AD.

Os sintomas causados pela ausência do AD podem ser de dores de cabeça, “estalos” no ouvido, tonturas, mal estar geral, e em geral melhoram com a reintrodução da medicação, que neste caso deve ser descontinuada de forma bem gradual.

Esse tema nos leva a próxima pergunta, frequentemente feita pelos pacientes..

É possível parar com uso dos AD em algum momento?

Sim é possível, mas sinceramente, não é um processo simples. Alguns pacientes necessitam de uso permanente de AD, e todas as vezes que tentam parar tem recaídas dos quadros depressivos, que podem ser por vezes dramáticas e perigosas.

Esses pacientes apresentam no geral, um diagnostico de depressão maior, ou de distúrbio bipolar, que são distúrbios afetivos crônicos e de natureza “endógena”, ou seja, não tem uma causa exata determinante que explicaria tal alteração do humor.

Acredita-se que nesse caso estamos lidando com uma doença causada por alterações químicas e fisiológicas no cérebro e no organismo, e portanto o tratamento permanente seria necessário e vantajoso, impedindo prejuízos na vida desses pacientes, tanto no aspecto mental, nos relacionamentos profissionais, sociais, e amorosos, bem como diminuiria muito o risco de suicídio.

Nas depressões causas por perdas e estresse situacional, sem histórico de depressões anteriores, a parada é possível dentro de 6 meses a 1 ano do inicio da tomada, e deve ser feita de modo gradual, uma vez que os problemas que causaram o evento depressivo, estejam de algum modo superados ou elaborados.

É importante pontuar que em muitas ocasiões esse tipo de distinção é bastante difícil de se fazer, bem como a decisão de parar ou não um antidepressivo, e o meu conselho é que esse tipo de avaliação teve sempre contar com a participação de um médico psiquiatra, um a vez que decisões erradas podem ter um desfecho trágico.

O uso dos antidepressivos podem alterar a personalidade de uma pessoa?

Muitos pacientes tem medo de que o uso dos antidepressivos possa provocar mudanças na personalidade, e de que ao final do processo de tratamento, irão se transformar em “outra pessoa”.

Esse medo é infundado, mudanças de personalidade acontecem somente no caso de lesões cerebrais (derrames, demências), quando ocorre a desestruturação de núcleos cerebrais de uma pessoa.

A dependência de drogas pode provocar mudanças na personalidade, quando usadas no longo prazo. Indivíduos dependentes de maconha, cocaína ou crack, ou mesmo do álcool, apresentar uma transformação na personalidade, principalmente no que tange as prioridades de vida e motivações pessoais. Passam a ser menos solidários e participativos, priorizando apenas o seu próprio prazer em detrimento das relações familiares e pessoais, mas mesmo assim, uma vez que param com o uso da droga, podem retornar as suas características pessoais originais.

Um dos efeitos causados pelos AD em determinadas pessoas, seria alguma sensação de “distanciamento da realidade” ou de indiferença quanto a fatos do dia a dia, o que não corresponde a uma mudança real de personalidade, uma vez que suspenso o medicamento, esse tipo de reação desaparece.

Publicado por Dr. Sergio Klepacz

Dr. Sergio Klepacz CRM 39099 – Médico psiquiatra pela Santa Casa de São Paulo desde 1980, mestrado em psicofarmacologia pela Unifesp. Diretor da clinica TotalBalance Medicina Integrada.

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3 Replies to “Os Antidepressivos Causam Dependência?”

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