Porquê Existem Tantos Tipos de Antidepressivos

O presente texto é a terceira parte de todo um capítulo que se refere a esse assunto. Confira a parte 1 Meu médico prescreveu um antidepressivo… e agora? e parte 2 Os Antidepressivos Causam Dependência?.

Porquê existem tantos tipos de antidepressivos, e qual seria o melhor?

Sim, hoje em dia há uma gama muito grande de tipos de antidepressivos que se distinguem pelo tipo de ação que a molécula provoca no neurônio e consequentemente no cérebro do paciente com depressão.

Os trabalhos científicos não mostram grandes diferenças entre a eficácia dos mesmos, porém na pratica, sabemos que um determinado tipo de AD pode ser melhor do que outro dependendo do sintoma do paciente. Por exemplo, existem depressões com ansiedade, com insônia, com desânimo, com angústia e dor, etc, e a arte do médico consiste em tentar através desses sintomas e sinais, escolher o tipo ideal de AD.

Podemos fazer uma classificação simplificada dos diversos AD, e seus mecanismos de ação:

Triciclicos

Ação múltipla em serotonina, noradrenalina, dopamina, histamina e acetilcolina – imipramina, amitriptilina, clorimipramina, desipramina, maprotilina. Indicados em depressões graves.

Inibidores da recaptação da serotonina

Agem principalmente aumentando a serotonina entre os neurônios – Fluoxetina, sertralina, excitalopram, citalopram, paroxetina, fluvoxamina. Bom para depressões mais reativas e leves, com sintomas de ansiedade e pânico.

Inibidores da recaptação da serotonina e noradrenalina, ou ação dual

Aumentam serotonina e noradrenalina nos neurônios – venlaflaxina, desvenlaflaxina, duloxetina, bom para depressões mais severas, na menopausa, na dor crônica.

Inibidores da MAO

Bloqueiam a enzima que degrada a serotonina, a noradrenalina e a dopamina, e portanto provoca indiretamente, o aumento desses NT– Tranilcipromina, selegiline. Ideal para depressões que não respondem aos outros tipos de AD. A desvantagem dessas drogas é que necessitam da adoção de uma dieta específica, por parte do paciente, para impedir aumento da pressão arterial.

Classe NaSSA, SARI

Agem bloqueando o receptor serotonérgico 5-HT2, que esta envolvido em sintomas de ansiedade, estimulando serotonina e noradrenalina – Mirtazapina, trazodona, agomelatina. Bons quando existe insônia grave acompanhando o quadro depressivo. Em geral são usados em combinações com outros AD.

Multimodal

Vortioxetina, AD com ação em vários neurotransmissores e receptores (ação complexa). Basicamente ele aumentaria a disponibilidade de serotonina, noradrenalina, dopamina, histamina, acetilcolina, glutamato e diminuiria o GABA, o que contribuiria para uma ação pro cognitiva.

Suplementos e produtos naturais poderiam substituir os AD?

Muitos pacientes se sentem desconfortáveis por estarem tomando um AD, e frequentemente querem substituir a droga por algum produto que seja natural, ou mesmo nem querem começar a tomar o AD, e me perguntam se existe essa possibilidade.

Uma das primeiras tentativas de tratamento com a administração de suplementos e vitaminas em pacientes psiquiátricos, aconteceu na década de 50, para o tratamento da esquizofrenia através de altas dose de vitamina B3, pelo psiquiatra canadense Abraham Hoffman. Apesar dos resultados positivos desta experiência, o surgimento de drogas poderosas, naquela época, ofuscaram o achado e inibiram a prosseguimento desta linha de pesquisa.

A adoção de suplementos nutricionais como terapia antidepressiva vem se firmando a partir da década de 70, a partir da noção de que os neurotransmissores são originários de aminoácidos essenciais (aminoácidos que tem que serem obtidos pela dieta, ou seja não são sintetizados pelo organismo) modificados pela ação das vitaminas.

Figura 1: Exemplo de como aminoácidos e vitaminas formam um neurotransmissor

Pela teoria, a suplementação dos passos metabólicos que formam os neurotransmissores, poderiam ajudar na formação dos neurotransmissores, e portanto aliviar os sintomas depressivos.

Na prática, alguns trabalhos foram realizados, demostrando a vantagem do uso desses suplementos nos pacientes depressivos, somente, ou em associação com os AD.

A realização de trabalhos científicos que demonstram a eficácia de um determinado produto para a terapia de uma doença, requer altos investimentos financeiros, sendo que o retorno monetário somente pode ser atingido através de drogas que podem ser patenteadas. Como os suplementos não podem ser propriedade de ninguém, poucas pesquisas são feitas com real interesse em seu uso, e isso explica a polemica sobre o assunto.

Na minha experiência, os suplementos dificilmente podem substituir os AD na fase aguda do processo, sendo que eles podem sim potencializar o tratamento, usados juntos com a medicação. O ideal seria o seu uso como preventivo dos processos afetivos, ou para a suplementação após a retirada da medicação, uma vez estando o paciente em fase assintomática.

O importante é que o paciente nunca tente fazer isso por conta própria, tendo sempre que ser avaliado por um colega psiquiatra para realizar complementação ou a substituição de medicação.

Publicado por Dr. Sergio Klepacz

Dr. Sergio Klepacz CRM 39099 – Médico psiquiatra desde 1983 pela Santa Casa de São Paulo, mestrado em psicofarmacologia pela Unifesp. Diretor da clinica TotalBalance Medicina Integrada.

Deixe uma resposta